quarta-feira, 16 de outubro de 2013

esquecer o que aí vem

sou funcionária pública. com orgulho. adoro o meu trabalho. adoro o que faço. sou funcionária pública. que afronta. então ganho mais de 600 euros. uma fortuna.
os meus pais investiram na minha formação. comecei a trabalhar assim que acabei o curso. a produzir. a contribuir. a ter um papel ativo na sociedade. achava eu do alto dos meus 23 anos acabados de fazer.
continuei a investir na minha formação já trabalhando. com o dinheiro que ganhava. adiei ter filhos. adiei a família. adiei a casa. fui adiando sonhos ou objetivos. fui colhendo experiências. fui aproveitando oportunidades.
não emigrei nunca porque achei que isto seria sempre melhor.que estar cá seria sempre melhor.
não saí porque apareceu a oportunidade de trabalhar na função pública que abracei porque iria fazer aquilo que tentava alcançar: fazer algo que realmente amasse!
e integrei. e fiz. e assim comecei a trabalhar para o estado.
esta manhã sinto-me roubada. como milhares de colegas que vestem a camisola. dão o litro. trabalham sem ganhar 1 cêntimo a mais de horas extra. abraçam. partilham. sorriem por amarem estar onde estão. como milhares de colegas que se preocupam. que não são aquilo que dizem. que os outros dizem. que são tão bons que não me apetece sequer começar a listar os nomes que lhes chamam. os advérbios que nos atribuem.
que nem me apetece. 
como milhares de colegas que adquiriram direitos. que lutaram por eles. estou triste. sei que, como eu, só nos apetece fazer, desta vez, e pela primeira vez o mínimo. assegurar apenas o que há para assegurar. baixar os braços. atirar a toalha para o chão. entrar na hora certa. sair antes 1 minuto da hora certa. prevaricar. destruir. não fazer.cruzar os braços.
é isso que apetece. tenho a certeza que é isso que lhes apetece.
o mais revoltante é que, mesmo assim, e apesar da falta de respeito, do roubo, do gozo, continuarão a ser profissionais altamente qualificados, empenhados. trabalhadores.  com vontade de investir numa carreira que não evolui. numa carreira que é tudo menos uma carreira.
porque este é um texto de quem sabe mesmo o que está a dizer e como dizer, tal como diz esta princesa moderna onde o descobri, impõe-se a partilha. ora leiam


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