terça-feira, 7 de outubro de 2014

ir às nozes e vir feliz!

*foto: a luz ao fundo do túnel pelo António Monteiro Cruz Fernandes
sinceramente não me recordo quando apareceram estes companheiros de trail. absoluta e completamente inesquecíveis surgiram numa parte do percurso da qual eu não me lembro. também muito sinceramente, não me recordo, onde foram vividas as maiores dificuldades, angustias ou em que local senti dores, quando fiz o meu primeiro trail no domingo. o trail das nozes em gondomar. sobejamente organizado, altamente bem sinalizado, com reforços e abastecimentos irrepreensíveis, muito muito muito bem desenhado, e tudo e tudo. parabéns organizadores!

ao longo do percurso de 23 km fui delineando mentalmente aquilo que ia sentindo. fazendo um esforço para gerir... o esforço. deslumbrei-me muito com a paisagem à minha frente e por baixo dos meus pés. no trail há paisagem por baixo dos pés, tão bem e tão intensa quanto aquela que se levanta sobre as nossas cabeças.
disseram-me entretanto, que a magia do trail é essa: a paisagem, o contacto duro, profundo, de amor completo para e com a natureza.

eram 6horas quando me levantei. comi pouco. não tinha fome, nem apetite nem nada. apenas sono e neura. a neura do desconhecido, do possível não ser capaz.
às 8h e pouco estávamos em gondomar. frio. vontade de ir à casa de banho. de dizer coisas e de não dizer nada. via tudo a equipar-se à minha frente. olhava em meu redor: sapatos super especiais com as melhores características de aderência e conforto na montanha; casacos e calções e calças e fitas para o cabelo xpto; mochilas que quase não pesam; garrafas de água ocultas sabe-se lá onde (risos); bastões, luvas, máquinas fotográficas. e eu, habituada a correr só na estrada pensei: bem, não tenho nada a ver com isto. mas, vamos lá ver como é. não há-de ser por uns sapatos ou uma por uma mochila.
o raio da bolsa que levava na cintura, improvisada em casa pelo meu maior fã das andanças de mota, começava a pesar-me. eu não sabia se vestia casaco, se despia casaco. se me atrevia ou não. sim, a poucos minutos de começar, eu ainda não sabia se me atrevia. se me atirava sem pensar aos 23 ou se ficava pela metade e aí faria, de certeza a tal boa figura que todos gostamos de fazer.


primeira subida: toca a correr por lá cima. neste momento aparecem umas almas caridosas que, pasmadas, me disseram logo que - sendo a primeira vez - convinha gerir o esforço nas subidas. ok, tudo bem. eram 23 km gente. 23! vinte-e-três! aquela pessoa tinha toda a razão. e eu, habituada a caminhadas longas na serra da freita sabia bem o tipo de piso e de inclinações que podia encontrar.

a minha querida r., companheira de todas as horas deste trail, olhava para mim meia em modo desespero. eu consegui quase adivinhar que pensava "no que eu me vim meter".

rapidamente nos habituamos a ir com o casal simpático de vassouras. habituados a subir e a descer montanhas, com maior ou menor inclinação, e com formas de encarar a dificuldade surpreendentes. as dicas que nos deram eram excelentes.provavelmente tiveram pena ou acharam que éramos loucas de nos aventurarmos assim, à bruta, sem qualquer experiência de trail, serra acima e serra abaixo por aqueles quase vinte cinco km.

serra acima e serra abaixo, com desconhecidos, conversamos sobre as corridas, sobre o exercício físico, sobre os trails, sobre, no fundo, o que estávamos ali a fazer, naquele momento; eu falei sobre os meus medos, fui desabafando angustias. quando dei por conta íamos a falar sobre a vida. a vida, tal e qual ela é. falamos que a satisfação de fazermos coisas destas, como um trail, dão vida, dão felicidade. valem mais do que muitos bens, supostamente, materiais. e que só quem o faz, realmente entende.

hoje, olho para domingo, e aquilo que vejo é que, aqueles dois, o antónio e alexandra, fizeram de tudo. e quando digo tudo, é tudo mesmo, para, sem nós nos apercebermos, manterem-nos motivadas e não pararmos de avançar. serra acima e serra abaixo. uma serra que nunca mais terminava.  

quase que desistia. apesar de desistir ser um verbo que não me estava e que nunca esteve na minha mente. posso dizer que durante aquelas três horas nunca, mas nunca, pensei que iria ou que teria que desistir.

o meu primeiro trail foi, todo ele, um grande "quase": para começar foi quase a não ir (não tivesse sido a minha pequena grande a. me ter inscrito quase sem eu saber; foi quase a desistir; foi quase a mudar para o trail curto durante o trail longo; foi quase a cair; foi quase a tomar banho na travessia do rio; foi quase a acertar com o nariz no chão quando tentava passar mais um curso de água (as partes que gostei mais); foi quase quase a não terminar; foi quase a não conseguir fazer; foi quase no sofrimento; foi quase sem ter pernas. foi quase a aguentar-me sem chorar ao passar a meta.
mas não consegui.

compulsivamente e como um bebé, atirei-me (quase literalmente) para cima do senhor que nos estava a entregar as medalhas. a seguir atirei-me para cima das minhas companheiras de aventura que gritavam, assobiavam, batiam palmas. queria abraçar a minha querida alice, queria dar um beijo ao meu homem, queria rir-me para as colegas e amigas de equipa e de aventuras. chorei a bom chorar e carpi ali uma mistura de satisfação por ter conseguido e, ao mesmo tempo, de frustração por, durante o trajeto, não conseguir avançar mais rápido quando a minha cabeça o pedia. as pernas desobedeciam. foi um misto de ternura pela rita que sofreu (tanto) com dores, de orgulho pelas duas e de uma felicidade infinita por ter cumprido aquilo que lhe disse "vamos chegar juntas porque vamos fazer isto até ao fim".

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